Corpo de Berenice

Justus, o milionário sem vergonha

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Outubro 22, 2009

“Ela não podia ter desistido”, repetia um inconformado Roberto Justus, às 22h do último dia 27 de setembro, um domingo, no camarim do estúdio onde havia gravado o programa Um Contra Cem, no bairro do Paraíso, em São Paulo. A publicitária paraense Marina Santa Helena, 25, a quem ele se referia, amealhara 200 mil reais minutos antes. “O que falta às pessoas é coragem de arriscar, sabe?”, continuava Justus.

O programa apresentado por ele premia o vencedor com até um milhão de reais, a depender de sorte, concentração e conhecimentos capazes de responder questões como “que sopa seria melhor servida a Gregor Mendel pela sua contribuição à genética?”. A saber, ervilha. Uma das opções, além de peixe e frutos do mar.

Antes de Marina, outros dois participantes haviam capitulado no cenário que reproduz uma arena, onde o jogador permanece no centro, ao lado do apresentador. Um deixou de ganhar 50 mil reais, outro, 100 mil.

À tarde, um animador de auditório treinou com o público aplausos e gritos para fazer a chegada de Roberto Justus apoteótica. “A participação de vocês no espetáculo é mais importante que o milhão de reais”, aconselhava. Todos seguiram à risca a coreografia de ovação. Ao pisar na arena, Justus foi recebido com saudações messiânicas.

Ele parece alimentar-se de fervor, de multidão, tal como descreve David Remnick no livro Dentro da Floresta (Cia das Letras), ao falar do ex-presidente norte-americano Bill Clinton, durante as campanhas eleitorais. “Agora, é um contra…”, diz Justus, jogando os braços para o alto, ao que os participantes completam “ceeeeeeeeeeeeem!”.

Quatro horas depois, e enxugando o buço pela 19º vez, Justus deu por encerrada a gravação sem intervalo em que Marina “podia ter ido muito, muito longe”, segundo ele. “Estou louco para entregar esse um milhão de reais, sabia?”, repete no camarim. Não parece cansado. Avisa que tem pouco tempo para a primeira conversa, “tenho uma pizza marcada às 22h e nem saí daqui, em pleno domingo. Pode uma coisa dessas?”. À medida que o fotógrafo aproxima a câmera, alerta: “Menos, senão as rugas vão aparecer”. Fora do palco há vinte minutos, Justus ainda parece estar sob holofotes. A expressão, a voz impostada e os gestos são de um entertainer em ação. Elétrico.

Trinta anos atrás, aos 24 de idade, Justus tinha pouca idéia do que fazer na vida. Tocar os negócios do pai, um engenheiro, judeu húngaro que emigrou para o Brasil em 1949, parecia ser o caminho natural. Caçula de uma família de três filhos, sendo duas mulheres, “era mimado como o quê. Eu tinha tudo para me acomodar, virar um filhinho de papai, mas fui à luta”, conta sem dispensar a frase de comercial.

Por luta, entenda-se frustrar a expectativa paterna de tocar os empreendimentos familiares que nos áureos tempos contemplava a empreiteira responsável pela construção do Congresso Nacional, sustentada em doze mil empregados. E, em tempos de vacas, magras uma empresa de pesca em Belém, no Pará. “Eu jamais iria praquele fim de mundo, não entendia nada de pesca. Recém-formado em administração, eu tinha um dinheiro guardado e, por questões de afinidade e confiança, virei sócio do Eduardo Fischer, na minha primeira agência de publicidade, em 1980”. Nascia a Fischer, Justus.

A parceria durou 18 anos. “Nem mais nem menos que o necessário”, emenda Justus, para em seguida dizer que “os últimos cinco, seis anos, foram de desencontro entre mim e Eduardo”. Um executivo do ramo, que prefere não se identificar – como muitos personagens ouvidos sobre o assunto – atesta o fato: “No fim da sociedade a convivência entre os dois era péssima. Sem contar que Fischer brilhou durante os anos todos como o grande criador, enquanto Justus ficava acuado na parte administrativa”, revela.

A não ser pelo sobrenome na marca da empresa, poucos lembram que campanhas publicitárias célebres tiveram a participação dele, como a que alçou a cerveja Brahma à condição de “número um” no país, com a participação luxuosa e sussurrada do cantor João Gilberto entoando o jingle.

“Fizemos coisas fantásticas, o que aumentou ainda mais o meu desafio quando decidi sair”, expõe, alegando que partiu para a nova empreitada levando pouco mais que “uns contatos pessoais que me valeram muito menos do que eu esperava”. De 1998 até hoje, a maré – de dinheiro – parece ter virado a seu favor.

Como CEO do Grupo Newcomm, presidente da Young&Rubicam e sócio da WWP, um dos maiores conglomerados de agências publicitárias do mundo, Justus doma uma receita que, em 2008, ultrapassou cinco bilhões de reais, gerenciando contas publicitárias milionárias de empresas como TAM, Casas Bahia, Telefonica, Vivo e Nova Schin. “Hoje em dia, pouco se ouve falar da agência de Eduardo Fischer no mercado”, alfineta o mesmo executivo que deu conta da falta de consenso entre os ex-sócios.

“Se eu fiquei rico? Digamos que alcancei o conforto de hoje, aos 54 anos, poder parar de trabalhar e mesmo assim ter uma vida decente”, revela Justus, e lista entre as tais decências de uma vida confortável a coleção de carros e relógios que mantém. “Coisa boba, um Maserati aqui, um relógio ali…”.

O que então foi capaz de convencer o empresário bem-sucedido, diante de números tão expressivos e a possibilidade – que certamente seria comemorada pelos detratores – de aposentar-se e viver como um anônimo rico, a atirar-se no mundo das celebridades e, do dia para a noite, trilhar o caminho de um novo Silvio Santos? “O desafio, o desafio, o desafio”, fala incisivo e com voz em tom crescente.

No último encontro com Justus, na ampla sala que mantém na sua empresa de publicidade, próxima à Marginal Pinheiros, o tom é quase nada diferente do visto no estúdio. Ele cumprimenta o repórter como aos participantes do Um Contra Cem.

Exibido pelo SBT um dia antes, Um Contra Cem patinou. Não passou dos cinco pontos no Ibope e relegou o canal ao terceiro lugar na guerra por audiência. “Você gostou do jogo?”, é a primeira pergunta que faz. “Pois é, todo mundo gosta, mas ainda não conseguimos passar de cinco pontos. Que droga!”, reclama, irritado.

O semblante de contrariedade desanuvia quando começa a falar de uma carta que recebeu naquela manhã. “Uma menina de 22 anos, dizendo que, veja bem, até tentou a morte, mas deu a volta por cima inspirada no meu exemplo. Isso é o máximo, sensacional. É isso que me move”, vibra. Em seguida lê trechos da carta em voz alta.

Instado a falar sobre a gênese do apresentador, cantor, escritor, palestrante motivacional, e, veja bem, exemplo para a vida das pessoas, Justus faz menção do namoro e casamento-relâmpago com a apresentadora de TV Adriane Galisteu.

“Isso tem uns dez anos. No começo eu me assustei, achei que iria ficar desconfortável com o assédio da imprensa, mas para a minha surpresa acabei gostando do meio, das pessoas. Anos depois me aparece a chance de apresentar O Aprendiz (reality show de negócios, da TV Record). Eu pensei, ‘pô, esses caras estão loucos’, mas topei”.

Durante a conversa irrita-se duas vezes. A primeira quando indagado se a aproximação com mulheres famosas foi algo calculado (após Adriane Galisteu, seguiram-se Eliana, Daniela Barros e sua atual mulher, Ticiane Pinheiro). “Eu não preciso disso! É uma questão de caráter, coisa que sempre tive”, brada com o dedo em riste.

Acalma-se em segundos, quando se alonga falando de ética na vida e nos negócios. Depois, detém-se no pai: “Fugiu da Hungria levado por um oficial a quem ele pagou uns trocados para deixá-lo na fronteira. Veio parar no Brasil por acaso. Escapou da morte diversas, inúmeras vezes. A história dele daria um filme!”, diz sem entrar em detalhes de que riscos o pai correu. Entremeando o relato da história da família, Justus menciona fatos que demonstram invejável conhecimento histórico ao falar da Hungria, da II Guerra Mundial e da perseguição aos judeus.

Quando faz alusão às vitórias do pai, discorre sobre seus temas prediletos, felicidade, sucesso e empreendedorismo – “inclusive ele [o pai] comentou dia desses, ‘quem diria que o nome Justus, que eu em certa época da vida tive que esconder para não morrer, hoje seria tão reconhecido e admirado pelo país afora?’”. Assuntos destrinchados nas palestras motivacionais que promove em turnê pelo Brasil.

“O que eu digo para as pessoas nas palestras? Yes, we can! Elas podem, e mostro como elas podem a partir do meu exemplo de vida. É disso que o Brasil precisa, de pessoas a serem admiradas por terem, honestamente, conseguido sobressair, vencer”, filosofa. “O problema é que, como dizia Tom Jobim, sucesso no Brasil incomoda. Se o cara faz sucesso e é bonito, ‘só pode ser viado’, se a mulher se destaca, ‘é piranha, fez teste do sofá’. É preciso mudar isso na cultura do país, você me entende?”, conclui arregalando os cintilantes olhos azuis.

Mudar o Brasil é tarefa que alguns políticos julgaram dentro da capacidade de Roberto Justus. Ancorados em pesquisas Ibope/Troiano, Ipsos e da revista Veja São Paulo, onde Justus divide o lugar no panteão de personalidades admiradas na mídia e nos negócios com Barack Obama, Brad Pitt e William Bonner, pelo menos três partidos o convidaram para disputar um cargo eletivo nas últimas eleições.

“Recusei de pronto”, confessa. “A política tem modos e meios de negociação e lobby pouco transparentes, aos quais eu jamais me adaptaria”, justifica. Ao responder se concorda com o presidente americano, que considera Lula “o cara”, vê-se aflorar nos meandros ideológicos de Justus, um tucano: “Veja bem, não se pode negar que ele é um sujeito brilhante, carismático, da mesma maneira que não é possível esquecer que tudo que o país vive hoje é fruto do que foi iniciado no governo de Fernando Henrique Cardoso”. Quando o assunto são as eleições de 2010, esquiva-se, dizendo que ainda é cedo para definições.

Ao falar dos últimos escândalos políticos que assolam o país, Justus tem a receita de bate e pronto: “A única maneira de mudar a política no Brasil é adotar na vida pública os preceitos da administração privada. O governo deve cuidar de educação, saúde e segurança, todo o restante, todo, deve estar nas mãos da iniciativa privada”, ato contínuo dá o exemplo das companhias telefônicas e estradas privatizadas no país.

Portanto, não seria ele o personagem capaz de imprimir essa mudança? “Jamais. Política não me atrai. Eu só faço o que eu gosto. Quem me critica precisa entender que o que eu faço, meus shows, as palestras e a TV acrescentam pouco ao que eu já conquistei. Para mim, tem que ter prazer”, diz revelando uma impressão que ao longo da conversa torna-se palpável: Justus não tem medo do ridículo, desconhece a cafonice e, sim, gosta de tudo que faz. Em última análise é um hedonista midiático.

“Sou muito low profile, sabia?”. Mas, e as capas de Caras, anunciando casamento, namoro, noivado, gravidez? “Justo isso! Os grandes eventos da minha vida. Eu, como pessoa pública, preciso atender a parcela do público que se interessa pela minha vida. Mas com parcimônia. Jamais me negarei a compartilhar os grandes, célebres e felizes momentos da minha existência”, justifica antes de se mostrar contrariado pela segunda vez, ao ser perguntado se o discurso acima não seria o de um personagem. “Fique à vontade para rotular, mas eu estou além disso”, responde.

Quando se fala em rótulo, as opções a respeito de Justus abundam. Cafona, brega, pavão e pedante são alguns dos adjetivos proferidos por concorrentes, embora todos sob pedidos de anonimato, “afinal, querendo ou não o homem tem força, né? Tem pouco louco aí querendo comprar briga com ele à toa”, diz um renomado publicitário.

Outro desdenha da carreira literária de Justus, que lançou dois livros, O Empreendedor (Larousse, 2005) e Construindo Uma Vida (Larousse, 2006), ambos escritos com auxílio do jornalista Sergio Augusto Andrade; “você já parou para ler aquilo? É uma baboseira sem tamanho, coisa de auto-ajuda”, ataca.

Justus sabe o que dizem sobre ele. Ou pareceu saber quando, ao fim da apresentação (na sala dele) do DVD comemorativo aos 50 anos de carreira do tenor brasileiro Agnaldo Rayol – “faço questão que você veja, ouça” – em que participa emprestando seus dotes vocais, avisa: “Estou pouco ligando se me chamam de cafona. Eu faço o que gosto e tenho o crédito dado por gente como Rayol, o que posso querer mais?”.

O jornalista Roberto Kaz, autor do texto Nasce Um Clássico, publicado em 2008 na revista piauí, ironizando o disco Só Entre Nós (Sony), em que o apresentador interpreta clássicos do cancioneiro americano, de Frank Sinatra a Nat King Cole, sabe o que Justus pode – e deveria – querer: “Encerrar a carreira de cantor”.

Mais de um ano depois de ouvir o disco pela última vez, Kaz foi convidado a uma nova audição para, quem sabe, mudar de idéia. “Não há saída. Roberto Justus está para a música, assim como [o ator] Alexandre Frota está para a gastronomia”, sentencia.

“Se eu li aquele texto [da piauí]? Claro que li! Dei boas risadas, é bem escrito. Mas, me responda, quem lê aquela merda? Meia dúzia de intelectuais”, desdenha Justus.

Mesmo depois de confrontado com as inúmeras críticas feitas a ele, abordadas ao longo da conversa, Justus não demonstrou nenhum abalo na postura auto-confiante. À guisa de última pergunta, reproduzi o comentário do escritor David Foster Wallace sobre as características marcantes de uma trinca de ficcionistas americanos do pós-guerra: John Updike, Norman Mailer e Philip Roth seriam, para o autor, os “Grandes Machos Narcisistas da América”. Uma expressão que me pareceu contemplar, tomada a devida licença pelo uso isolado e adaptada à outra realidade, a imagem de empresários que se tornaram famosos a partir do fim da década passada pela agressividade nos negócios, o acúmulo de dinheiro e a ostentação de belas mulheres, como Eike Batista e Roberto Justus. A única ressalva foi de não ter “tanto dinheiro como o Eike, né?”.

Justus não reclamou do “grande”, nem do “macho”. Muito menos do “narcisista”.

Vôo Cego

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Outubro 16, 2009

Por Rodrigo Levino
Revista Vida Simples

Deixar as crianças na escola, trabalhar, cumprir prazos, horários, metas, lembrar a senha do banco, o vencimento das contas, atualizar o Twitter, o Facebook, checar e responder e-mails de trabalho e pessoais, ligar para os amigos, brincar com os filhos, ir ao cinema, enfrentar horas de engarrafamento, alimentar-se, dormir, acordar. E, por fim, estar pronto para um novo dia onde mais tarefas serão somadas à lista.

Sim, nós podemos.

Mas, e quando não conseguimos mais? E quando deixamos de acreditar que somos capazes de ao menos levantar da cama e cumprir o menor dos afazeres? Para além da contumaz preguiça de segunda-feira ou o sem ânimo de encarar o chefe, o trânsito e o amigo carente que cobra atenção, é possível que a depressão tenha chegado e, com ela, a sensação de impotência descrita com simplicidade em janeiro de 2008, no diário da jornalista americana Daphne Merkin, 55: “Jamais conheci uma pessoa depressiva que quisesse sair da cama pela manhã – que não vivesse o raiar do dia como uma convocação para se enterrar ainda mais embaixo das cobertas”.

Daphne sabe do que fala. Ensaísta, romancista, crítica literária e de cinema consagrada em publicações como a revista New Yorker e o jornal New York Times, ela convive há quarenta anos com a depressão. Alternando calmaria e recaída, vivacidade e fracasso, a jornalista confessa desejar que tudo fosse mais “simples como engessar a mente até ela sarar, assim como se engessa um tornozelo quebrado”. Expectativa similar – e às vezes frustrada – à de Manuela, Laura, Pedro, Tatiana (identificados a pedido, apenas pelo primeiro nome) e Luiz Caversan.

Os cinco personagens ouvidos por VIDA SIMPLES sobre depressão, enfrentam ou enfrentaram a dificuldade de não ceder ao “enterrar-se ainda mais embaixo das cobertas”, e ajudaram a montar um pequeno mosaico da doença que, de acordo a Organização Mundial de Saúde, atinge anualmente 4% da população feminina e 2% da população masculina ao redor do mundo.

No total, estima-se que 20% da população mundial sofra ou tenha sofrido de depressão em alguma época da vida. Associada a outras doenças, é o mal que até o ano 2020 ocupará o segundo lugar das causas de morte, atrás apenas dos males coronários.

Não conseguir encaixar-se no check-list da modernidade é um poderoso gatilho para o início do mal, mas ao contrário do que se imagina, está longe de ser o principal motivo para a manifestação da doença. Afinal, há pelo menos dois mil anos, quando não havia ponto a ser batido, chefe, trabalho e engarrafamento, os gregos diagnosticaram e conjecturaram a respeito do problema.

A crise

Voltar ao trabalho após o nascimento do segundo filho transformou-se numa tarefa hercúlea para a recifense Laura, 34, advogada. A vocação exercida com prazer desde os 22 anos de idade virou, do dia para a noite, “a pior coisa que podiam me obrigar a fazer”, conta. A segunda maternidade aos 29 anos diferiu em tudo da chegada do filho mais velho.

Aos poucos, o desânimo estendeu-se à casa, à família e aos amigos. A vaidade e a libido deram lugar à fadiga e à sonolência, que praticamente a incapacitaram de viver o primeiro ano da criança. O casamento esteve à beira do fim em pelo menos três ocasiões. Entre recaídas e melhoras, o problema correu sem nome por mais dois anos e meio, até que em julho de 2008 veio o diagnóstico, quando ela se dispôs e a procurar um terapeuta: depressão pós-parto.

Para a carioca Manuela, 24, produtora de moda, o estopim foi a separação dos pais. Abatida, decidiu recomeçar a vida há quatro anos em São Paulo, longe dos problemas familiares. A solução revelou-se um desastre. Sozinha, sem amigos e sem apoio familiar, Manuela sucumbiu à hostilidade da metrópole, aos engarrafamentos, ao ritmo acelerado do novo trabalho e pior, à bebida. Em dois meses foi à nocaute. “Fui salva pelo meu pai que veio me visitar e viu que eu mal comia, bebia muito e faltava ao trabalho, que por pouco não perdi”, conta com expressão de alívio.

“Estou há um ano sem crise, mas nunca se sabe…”, diz Manuela. Aliando terapia, antidepressivos, esporte e alimentação saudável, ela diz sentir-se mais forte, embora o medo de novas crises esteja sempre à espreita. Antes do atual período de calmaria, o maior problema foi a falsa sensação de cura. Nos dois primeiros meses em que se viu aparentemente recuperada do problema, voltou a beber. A mistura de álcool com remédios a fez reviver o inferno de antes. “Achei que iria de novo para o fundo do poço, mas consegui sair”.

Apesar da quantidade de casos relatados a partir de perdas e/ou traumas, não é sempre que dá-se um estopim factual. Foi o que faltou, por exemplo, ao caso do jornalista Luiz Caversan, 52. “Os primeiros sintomas da depressão vieram em 1998. Eu morava numa cidade linda (o Rio de Janeiro), tinha um ótimo emprego, vida social intensa e satisfatória”. Nada impediu, no entanto, que a doença viesse à tona, junto com a falta de apetite, o excesso de sono e à tristeza crescente.

“Enfrentei fases muito agudas por longos oito anos, até 2006. Nos últimos três anos a vida melhorou muito”, conta Caversan, que de vez em quanto lida com a melancolia, mas nada que se compare às crises passadas. Quando indagado sobre que conselhos daria a alguém que acabou de descobrir o problema, ele se diz inapto para regras, mas se for o caso, que se busque um meio termo. “Nem a vergonha de ter a doença, muito menos viver em função dela”.

De Hipócrates a Freud

De Hipócrates a Sigmund Freud, o conceito de depressão foi ampliado e até hoje é perenemente ajustado às novas descobertas e casos. Para o grego, de cuja língua se origina o termo melancolia (ao pé da letra “bile negra”), a ação de Saturno sobre o corpo humano fomentava a produção de uma secreção do baço, capaz de alterar o humor do individuo, levando-o ao isolamento e à fadiga.

Freud, no livro “Luto e Melancolia”, afirma que a depressão (à época ainda simplesmente ‘melancolia’) tem, afora a perturbação da auto-estima, sintomatologia inteiramente encaixada nas características do luto: “desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima”.

O elenco de sintomas ligados unicamente à perda foi, se não desmentido, ultrapassado, vide o caso de Luiz Caversan – entre tantos outros-, levado a lidar com a doença sem motivação factual. Por isso, perceber, assumir e entender a depressão requer paciência, consciência de que é possível viver tendo a doença e coragem de participar o problema a quem cerca o deprimido

Não é sempre que cansaço, tristeza, angústia e solidão bastam para o diagnóstico. A duração desses sintomas, no entanto, é um medidor à mão para saber-se doente ou próximo de alguém que padece da incapacidade de adequar-se ao mundo, às cobranças e ao, no dizer de Lacan, “dever de ser ‘todo’ para o ideal” de felicidade, realização pessoal, profissional e afetiva.

Quando chega a depressão

Para Jair Mari, 56, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo e professor honorário do Institute of Psychiatry, do Kings College of London, “a principal característica da depressão é a sensação de perda de felicidade. O indivíduo deixa de sentir prazer em tudo que gostava e tem uma sensação de angústia profunda. O diagnóstico clínico exige que haja uma mudança qualitativa na vida da pessoa, um estado duradouro e persistente de pelo menos duas a quatro semanas”.

Ao redor da angústia, estacionam os extremos: a falta ou excesso de apetite, a insônia ou a hipersônia e ainda a inquietação ou a inibição motora e diminuição da velocidade de pensamento.

Segundo a terapeuta Leda Campos, 51, se sentir “desconectado” é uma maneira de colocar-se perante o mundo, mas que precisa de regulação, “a fim de não tornar a vida em sociedade inviável”. Leda diz ainda, que “a tal desconexão pode se dar ou pela sensação de impotência ou pelo excesso de ansiedade, que finda em caos, paralisando da mesma forma a vida do indivíduo”.

Vê-se, portanto, que a imagem que o senso comum criou do deprimido é falha. A realidade varia caso a caso. No caso do paulistano Pedro, 38, professor do ensino médio, a euforia repentina e duradoura o levou ao diagnóstico da depressão há sete anos. “Não conseguia sequer dar aula, tamanha a ansiedade. Passei a ter palpitação, suar frio, fazer mil coisas ao mesmo tempo sem dar conta de nenhuma”.

As tarefas inconclusas levaram-no ao acúmulo de pendências. Impossibilitado de colocar em dia o planejamento e a execução das aulas, viu-se afastado dos alunos, cobrado pelos superiores e desregrado na dieta que levara até então, agora muito acima do peso e insone. “Foi quando sofri um ‘blecaute’, um curto-circuito. Me disseram que era apenas uma crise nervosa por excesso de trabalho”.

Instado a permanecer com o primeiro diagnóstico, Pedro não se satisfez. O gatilho da primeira crise estava à vista: o fim de um namoro de dois anos e meio. “A terapia me ajudou a enxergar o ponto de partida da minha depressão. Os remédios são fundamentais para controlar a minha ansiedade”, diz para em seguida relatar a sua maior dificuldade: comunicar a depressão aos mais próximos. “É difícil fazer entender que não é simples, que pode demorar a passar”, diz.

Participando

Compartilhar a doença é um dos pontos mais delicados da relação entre o deprimido, seus familiares e amigos. Apesar do apoio que de antemão se presta ao doente, dois problemas são possíveis: a falta de paciência no trato com paciente e a culpa que o acomete. No entanto, a rede de apoio engendrada a partir da consciência do problema é fundamental para a sua recuperação.

Jair Mari diz que um dos caminhos que facilitam essa comunicação é deixar claro que ter depressão “não é indicativo de fraqueza ou de falha pessoal. É importante saber que os sintomas não vão desaparecer espontaneamente, e que em geral, os antidepressivos demoram de três a cinco semanas para fazer efeito”.

Estar ciente de que o que se busca não é a cura, mas a melhor administração possível da doença é outra arma a ser utilizada. Para Caversan, “hoje em dia as coisas melhoraram muito nesse sentido. Há muita informação circulando na internet, na TV, em publicações. O que torna o problema próximo de quem convive com o deprimido”.

Se informar sobre o problema foi uma das saídas encontradas pelo próprio Caversan, que escreve regularmente sobre o assunto na coluna que mantém na versão online do jornal Folha de S. Paulo. Escolha parecida ao do também jornalista Andrew Solomon. Americano, colaborador do New York Times, Solomon que teve a primeira crise aos 31 anos, lançou há dez anos o livro “O demônio do meio dia – Uma anatomia da depressão”, onde esmiúça as implicações sociais e culturais da depressão ao longo da história, figurando-a como uma “sensação prolongada de queda livre”.

O “estar cioso” dessa queda ajuda a amenizar outra face da doença: a culpa. Incapaz de viver, sair, se divertir, reagir à insistência da participação em atividade coletiva, o deprimido fica a um passo de sentir-se culpado, quando na verdade é vítima.

Para a paulista Tatiana, 29, publicitária, o mais trabalhoso da crise que enfrenta há cinco anos foi ter consciência de que não atender ao chamado dos amigos para o bar, as festas e viagens, ou mesmo o almoço em família no domingo, era algo compreensível e que pode ser compensado assim que a depressão estiver sob controle.

“É um período difícil, onde não fazer parte da turma pode parecer má vontade, ‘frescura’, preguiça. Quando me convenci que não era nada disso foi mais fácil que os outros entendessem que assim que isso (a depressão) melhorar eu vou voltar a vê-los, com a mesma alegria de antes”, diz emocionada.

Como lidar

A compreensão alcançada por Tatiana entre seus amigos não é uma regra. Por mais entendimento que haja do problema, é difícil “lidar com um ente querido prostrado, sem ânimo”, diz Caversan.

Para Leda Campos, “os familiares costumam queixar-se muito de cansaço, de conversar e não obter resposta, brincar e não receber nem um sorriso, e ainda ter que conviver com o isolamento do paciente, a inércia para alimentar-se”. Leda cita ainda o chamado “instinto de morte”, que torna ainda mais dificultosa a relação.

Diante de tantas dificuldades, é improvável uma receita de como agir. Deve haver, mesmo assim, um fio condutor que une respeito, dedicação e solidariedade. E ainda, segundo Jair Mari, a noção de que “antidepressivos não são pílulas da felicidade. Na presença de idéias de suicídio, o sujeito deve ser informado que a depressão poderá passar nas próximas semanas e que esta sensação de desesperança e impulso suicida também desaparecem no decorrer do tratamento”.

Para Manuela, o apoio dos pais, mesmo separados, foi fundamental para que as crises rareassem. No caso de Laura, a mudança de postura do marido diante do diagnóstico da depressão pós-parto foi a tábua de salvação: “Ao invés de cobrar ele passou a compreender. Foi a melhor forma de me sentir apoiada, segura”, revela a advogada, hoje de volta ao escritório.

Nunca a cura

Sendo uma doença de origem não totalmente esclarecida, com percentuais de causas que dividem-se em 35% de causa genética e 65% de eventos vitais, buscar a cura da depressão é um passo em falso tanto para o deprimido quanto para quem lida com ele.

Segundo Jair Mari, “o risco de recaída é de 60% com antecedente de dois episódios depressivos e de 90% na vigência de três episódios. Entre 50% e 85% das pessoas sofrendo de um episódio de depressão aguda irão ter um futuro episódio, usualmente dentro de dois a três anos. Na vigência de crises freqüentes e de certa gravidade, assim como nos pacientes com baixa de humor prolongado (distimia), o tratamento poderá se prolongar por toda a vida”.

Esses fatores, ao invés de provocar desânimo, devem configurar êxito na busca pelo máximo de informação possível, de maneira a tornar palpável o controle das crises, tornando-as esparsas e cada vez mais leves.

Leda diz que “o nosso trabalho na terapia, com auxílio – se preciso, de antidepressivos – é ajudar as pessoas a retornarem produtivamente à vida social, dando a elas a sensação permanente de luta, mas o principal: de batalhas vencidas dia após dia”. Ao invés de cura, ela prefere acreditar que o tratamento é “um processo de fortalecimento perante a vida”. Manuela, Laura, Pedro, Tatiana e Luiz são unânimes em concordar.

Fasano: os bastidores da melhor cozinha do país

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Setembro 10, 2009

Um ex-recruta, uma ex-faxineira, um ex-garimpeiro. Essas são apenas algumas das espécimes que labutam na cozinha mais famosa do Brasil, a do restaurante Fasano, em São Paulo – onde nosso repórter esteve por dois dias e voltou prestes a se tornar um ex-jornalista

Por Rodrigo Levino

Em janeiro de 2002, o americano Bill Buford ostentava em seu currículo disputados postos de uma carreira jornalística. Editor-fundador da revista Granta, onde trabalhou de 1979 até 1995, autor de um elogiado livro-reportagem sobre os hooligans (“Entre os vândalos”, Companhia das Letras) e, desde 1996, editor de ficção da New Yorker, Buford tinha poder e era invejado.

Prestes a completar 50 anos, largar o prestígio de que gozava entre seus pares e virar cozinheiro parecia mais uma crise de idade. Mas ele não hesitou. O perfil do chef Mario Batali que escreveria para a New Yorker transformou-se em ano sabático. Guiado por Batali, que o aceitou como assistente na cozinha do restaurante nova-iorquino Babbo, o jornalista abandonou a redação, trocou contos, ensaios e reportagens por massas, molhos e risotos. A curiosidade incessante o levou ainda à Toscana, Itália. Lá, pelas mãos do açougueiro Dario Cecchini, Buford desvendou o segredo dos melhores cortes, das melhores carnes. Virou chef.

Às 22h18 do último dia 21 de agosto, me ocorreu um perfeito entendimento da mudança que Buford empreendeu na vida. Na cozinha do Fasano, o melhor restaurante italiano do Brasil, e abaixo do salão lotado por 90 comensais, o masseiro Antonio Jenuíno recheava um gnocchi com carne de ossobuco.

Em 12 minutos, o prato subiu os 24 degraus que separam os dois cômodos e foi servido à mesa oito. Ao fim do jantar, o garçom trouxe as congratulações do cliente: “Ele disse que nunca comeu nada parecido na vida”. Antonio riu.

Há dois dias participando da compra dos produtos à finalização dos pratos, o trabalho de Antonio me pareceu mais nobre, dedicado e de qualidade imensamente superior ao que em geral se alcança numa reportagem como esta. Foi inevitável invejar a criação do gnocchi.

A iguaria, criada pelo chef Salvatore Loi, ganhou em 2008 o prêmio de melhor prato de massa do país. Parte do mérito ele divide com Antonio, maranhense, pai de dois filhos e ex-garimpeiro. “Se não fosse ele eu jamais teria conseguido criar esse prato. Não conheço ninguém com tanta sensibilidade nas mãos”, conta Loi apontando para a redoma de vidro rodeada por balcões de mármore. Dali saem todas as massas servidas no Fasano. Lá também me pareceu o melhor lugar da cozinha para estar agora que penso em mudar de vida, como Buford. Guiado ao invés de Batali, pelo chef Loi.

Há dez anos trabalhando no Brasil, casado com uma brasileira que conheceu na Europa e pai de uma menina de dois anos, Loi comanda 16 cozinheiros na principal das sete cozinhas que o grupo Fasano mantém entre São Paulo e Rio de Janeiro. Ao todo, são 170 homens e mulheres.

A gastronomia ele escolheu ao completar 16 anos. Italiano da Sardenha e caçula de uma família de sete irmãos, Loi seguiu os conselhos da irmã mais velha, Lina. Para ela, a cozinha era “o melhor caminho para conhecer o mundo, pessoas e novas culturas”. Ele, que antes de chegar ao Brasil trabalhou em Milão, Madrid, Paris e Londres, não discorda. O início da carreira, no entanto, aconteceu no quartel, como recruta em Roma. “Ali, mesmo sem muito refino, percebi que nunca mais largaria a doma, o chapéu e o avental”, diz com forte sotaque italiano, enquanto prova o molho de trufas que adornará o filet mignon preparado por Expedito.

Paraibano de Sumé, Expedito Baraúna, há 11 anos no Fasano, cuida dos pratos com filet mignon, perdiz, coelho e cordeiro. À sua frente, Romualdo Félix dedica-se aos risotos, massas e frutos do mar. Mas não só disso, nem apenas eles.

Graças à política de rodízio implantada por Loi, todos os cozinheiros estão aptos a preparar qualquer prato. Ou realizar qualquer atividade necessária, a depender do ritmo do dia, como lavar pratos. Coisa que Washington Vieira faz há quatro meses. “Eu trabalhava num restaurante aonde o Loi ia de vez em quando. Esperei dois anos para conseguir falar com ele. Um dia criei coragem, agarrei o seu braço e disse que faria qualquer coisa para trabalhar aqui”, conta ele, que sob o olhar paterno do chef aos poucos deixa a pia e manuseia caldos, molhos e massas. “Ele vai longe”, diz Loi.

Longe era um lugar que Rose Almeida não esperava chegar durante os cinco anos em que trabalhou limpando a cozinha do Gero, um dos restaurantes do grupo. Nos intervalos, a convite das colegas, ajudava a preparar saladas e sobremesas. Com a lacuna aberta no posto correlato do Fasano, Rose foi surpreendida pelo convite de Loi. “Eu não sabia o que dizer, nem acreditei. Ele disse que fazia três anos que estava me observando e achou que era hora de eu assumir um lugar na cozinha”, revela com os olhos marejados.

Quando indagada sobre onde quer chegar na gastronomia, Rose diz que isso fica por conta do chef, “para onde ele for, eu vou”. Loi, que não faz planos de deixar o Brasil, garante que haverá tempo no mínimo para que ela conclua a faculdade de pedagogia, que cursa no turno anterior ao trabalho no restaurante. “Além de crescer dentro da cozinha, claro”, emenda.

A academia é um ponto comum às três mulheres do grupo. Além de Rose, Michele Acquesta e Paula Belleza dividem o tempo entre a bancada do Fasano e a universidade. Estagiária de apenas 19 anos, Michele, estudante de gastronomia, dá assistência a Rose. “Ela tem o que falta a 90% dos que querem cozinhar: humildade e dedicação. Não são poucos os que chegam aqui achando que já são chefs. Ela não sofre desse mal”, derrete-se Loi diante da pupila.

O elogio ele estende a Paula, há dois anos responsável pelas saladas e a um ano de concluir o MBA em gastronomia. Em comum, as três usam coloridas bandanas, que as diferenciam dos demais companheiros, todos de chapéu branco. Inclusive Loi e Sandro, sub-chefe há três anos.

Discreto, Sandro Aires mantém na cozinha o ritmo imprimido por Loi. Não há destempero. O tratamento é firme, porém respeitoso. “É ilusão achar que toda cozinha é igual a de Gordon Ramsay (chef inglês, estrela de um reality show em que normalmente destrata os aprendizes). Eu acho ultrapassado e desnecessário gritar com os ajudantes”, diz enquanto observa Assis decorar uma lagosta, guarnecida com risoto de cogumelos frescos.

Não há um pedido que chegue ao salão sem passar pelos cuidados de José de Assis, paraibano de Monteiro, há 18 anos no ofício de limpar e decorar os pratos. A priori um trabalho simples. Mas é ele quem dita o compasso que se abre entre a chegada dos pedidos, a feitura dos pratos e a hora de servi-los. Sem anotar nada, memorizando tudo a partir do que é “cantado” no microfone posto na entrada da boqueta, Assis sabe quem pediu o quê, quando e onde. Graças a ele, um couvert jamais será servido depois da sobremesa e sempre antes do prato principal.

Mesmo não trabalhando diretamente com os clientes, como os garçons, Assis diz poder reconhecê-los pelo pedido. “Tem aqueles que são clientes há cinco, dez anos, variam pouco os pratos, a gente acaba sabendo quem é, inclusive pelo horário em que chegam. Às vezes pergunto só para confirmar, nunca erro”, conta, para acrescentar em seguida um pedido a Sandro. “Põe mais um pouco de caldo nesse cordeiro, esse cliente prefere assim.”

A extensa clientela só se equipara em número à quantidade de fornecedores e produtos utilizados na cozinha. É Loi que escolhe cada ingrediente, auxiliado por quatro funcionários responsáveis pelas compras. Produtos do mundo inteiro são provados e, se aprovados, negociados como num pregão. A quantidade justifica a barganha. Há sempre gente disposta a ter entre os fregueses quem compre mensalmente uma tonelada de farinha de trigo, três mil ovos, meia tonelada de filet mignon, uma tonelada e meia de peixes e frutos do mar e três mil garrafas de vinho. São os produtos mais consumidos no Fasano.

Tanto critério exige de Loi uma jornada dupla. Ao contrário dos seus cozinheiros que trabalham a partir das 18h até por volta de uma e meia da madrugada, o chef também dá expediente numa sala do Hotel Fasano, onde degusta desde queijos e manteigas a carnes e azeites. Os produtos escolhidos findam nos pratos mais refinados da casa, pagos por contas que podem chegar ao valor de um carro popular.

Popular como o gosto dos dezesseis cozinheiros, que, se tivessem de comer no Fasano, não fariam para si mesmos o gnocchi recheado com carne de ossobuco, nem a lagosta adornada com tomates frescos, muito menos o cordeiro envolto em crosta de pão italiano ou o risoto de cogumelos recém-chegados de Roma. Pela voz de Assis, o decorador, e faltando pouco para o encerramento do expediente que se estendeu para mais de duas da manhã e rendeu 130 jantares, eles anunciam o prato de consenso: cuscuz com leite.

Larry Rohter

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Agosto 20, 2009

A entrevista abaixo reproduzida foi conduzida a quatro mãos. Eu e Débora Mamber nos encarregamos disso.

Correspondente do New York Times no Brasil por 9 anos, Larry Rohter se tornou famoso por aqui depois de publicar no jornal americano uma reportagem sobre os hábitos etílicos de Lula. Quase foi expulso. De volta a NY, onde escreve livro sobre o país, ele fala de crise econômica, Aécio Neves, queijo com goiabada, Brics, Itamaraty e, claro, “o cara”

No início de 2008, prestes a deixar o Brasil depois de temporadas intercaladas que somavam quase 20 anos, o jornalista Larry Rohter queria trabalhar na Ásia. O New York Times deu-lhe duas opções: Iraque ou Nova York. A escolha pelo segundo destino colocou-o de volta na editoria de cultura, posto que ocupou em 1974 no jornal The Washington Post, até então aos cuidados de Carl Bernstein, jornalista do famoso caso Watergate.

Em 1977, a Washington Post Company procurava um repórter para ser correspondente no Brasil. Rohter não pensou duas vezes. O interesse pelo país surgiu no início daquela década, quando ele conheceu a então futura mulher na Universidade de Georgetown. Brasileira, ela fascinou o jovem Rohter com uma coleção de discos tropicalistas. Ele decidiu aprender português e exercitava lendo romances de Jorge Amado e Clarice Lispector e poemas de Carlos Drummond e João Cabral de Melo Neto.

Aos livros e discos brasileiros, que aumentaram consideravelmente com o passar dos anos, Rohter juntou xilogravuras, folhetos de cordel e artesanato de várias partes do país, fruto de inúmeras viagens à caça de pautas e personagens brasileiros a serem apresentados aos leitores americanos. Tudo está guardado no apartamento em que mora, a 15 minutos da sede do New York Times, em Manhattan.

Foi escrevendo no NYT que despertou a ira do presidente Lula e seus asseclas. Numa matéria publicada em 9 de maio de 2004, Rohter alçou à condição de preocupação nacional o gosto do presidente por bebida alcoólica. O texto quase rendeu ao correspondente uma expulsão do país. Rohter diz que a reação foi desmedida, assim como em tantas outras matérias suas, que “muitas vezes tinham mais impacto no Brasil do que nos Estados Unidos”.

Observador perspicaz e com visão privilegiada dos fatos políticos e sociais do Brasil, Rohter dedica-se atualmente à feitura de um livro por encomenda de uma editora americana sobre o Brasil, a completar uma coleção que trata dos Brics, o grupo de países economicamente competitivos formado por Brasil, Rússia, Índia e China. Neste último, Rohter também passou uma temporada que lhe rendeu um panorama da economia, do modus operandi dos chineses em política e planejamento.

A empreitada literária não se resume ao ensaio sobre o Brasil, destinado a investidores e “pessoas que não sabem nada sobre o país, inclusive sua história”. Rohter está a caminho de concluir um romance chamado Foreign Exchanges. O título vem de “O Estrangeiro”, de Caetano Veloso. A ligação com o país parece ainda mais forte, apesar da distância. O criticismo, idem.

Rohter atendeu PODER para falar (em português e quase sem sotaque) de política, economia, Brics, Rio de Janeiro, Nova York. E também para dizer do que sente falta desde que voltou para os Estados Unidos. A saber, goiabada com queijo e água de coco. Sobre o que dá graças a Deus por ter deixado para trás, ele conta a seguir.

Poder: Depois de tanto tempo morando fora, como é estar de volta aos Estados Unidos?

Larry Rohter: Eu me sinto um estrangeiro. Fico observando as pessoas, os hábitos, como se estivesse num país que não conheço direito. Algumas coisas me parecem muito curiosas, como jantar às cinco da tarde. Sem falar na própria comida. Todos os hábitos alimentares me parecem muito estranhos. Também me incomodo com a contaminação do ambiente público pelos celulares e computadores, sem que as pessoas se deem conta de que existe gente ao redor. Mas não quero parecer rabugento…

Poder: O senhor viveu muitos anos no Brasil. Do que sente falta e do que dá graças a Deus por ter se livrado?

LR: Sinto falta de coisas banais. Goiabada com queijo minas e água de coco, por exemplo. Só não senti falta ainda de sabonete Phebo porque trouxe um estoque comigo. Não sinto falta da bagunça de modo geral. Especificamente de pessoas que furam fila, que é algo impensável nos Estados Unidos. Também não sinto falta do “sabe com quem você está falando?”. Acho que a vida nos EUA é um pouco mais democrática.

Poder: Nesse momento, o senhor prepara um novo livro sobre o Brasil, o quarto de uma série sobre os Brics. É possível pensar nos Brics como um bloco relevante ou são países tão diferentes entre si que jamais formarão um conjunto?

LR: Os países do bloco têm interesses comuns e também muitos contrários, difíceis de serem conciliados. O Brasil e a Índia são duas democracias, China e Rússia, não, e esse é um ponto fundamental. A verdade é que o Bric é algo artificial, gestado pelos bancos de Wall Street. Eu vejo o Brasil como um país que transita por vários grupos, uma potência regional com relação estreita com muitos países e transações comerciais que se estendem aos EUA, à Europa, à Ásia e à África. É incorreto qualificar o Brasil apenas como membro de um grupo específico.

Poder: Como vê as consequências da crise econômica para os Brics?

LR: Os efeitos negativos da atual crise econômica são inegáveis. Por outro lado, me impressiona muito como ela se abateu com menos força em países como o Brasil. Isso é fruto de políticas financeiras responsáveis dos governos de Fernando Henrique e de Lula. Não é o caso dos EUA, que saiu do governo Bush completamente desestruturado, produto da irresponsabilidade com gastos.

Poder: Então o senhor, de certa forma, concorda com a previsão de Lula de que a crise aqui não passaria de uma marolinha?

LR: Eu não reduziria tamanho desafio com uma frase desse tipo. Achar que a crise foi uma marolinha é menosprezar o que houve de ginga e inteligência para que o país tenha essa tonicidade diante de um momento como esse.

Poder: Em seu livro Deu no New York Times, o senhor diz não acreditar que a China veja o Brasil como parceiro e aliado e que, se não tomarmos cuidado, os chineses farão com nosso país o mesmo que outras potências como Portugal e Inglaterra fizeram em outros tempos – levar nossas matérias-primas para fomentar o seu desenvolvimento, deixando pouca coisa em troca. Como acha que caminhou essa relação desde que escreveu o livro?

LR: Quando fui correspondente na China, presenciei incidentes em que o governo chinês pressionou e até chantageou empresas estrangeiras como General Motors, sempre usando como instrumento de persuasão o famoso “mercado de um bilhão de almas”, que para mim é um mito. Mais recentemente, o impasse envolvendo a empresa australiana Rio Tinto é também emblemático da agressividade dos chineses. A China tentou comprar a Rio Tinto, e foi rejeitada. Ao mesmo tempo, quis negociar um novo contrato com a empresa e fornecedores de minério de ferro, para baixar o preço da matéria-prima em 40%. Sem sucesso, o que fizeram? Levaram presos vários executivos e funcionários da Rio Tinto no país, alegando espionagem. Todos os investidores estão assustados, e com razão. Se eu fosse um executivo da Vale do Rio Doce, estaria muito preocupado. Não tem como competir nesse ambiente de intimidação e ameaças.

Poder: Qual deveria ser a nossa estratégia diante disso?

LR: Os chineses têm uma visão estratégica de anos, décadas e até séculos, o que faz deles um competidor muito forte. O Brasil, por sua vez, não tem um planejamento a longo prazo, e isso é uma desvantagem fundamental. Por isso me preocupo com a saída de Mangabeira Unger do governo Lula. Além de Marcos Jank (economista, professor da FEA-USP) e Eliana Cardoso (doutora em economia pelo MIT e professora da FGV), poucas pessoas hoje no país estão realmente preparadas para esse desafio e isso é algo que deve ser estimulado. Quero ver o Brasil com benefícios e não migalhas, mas para isso é preciso planejar como os chineses.

Poder: Como o mundo enxerga hoje o Brasil? Além das questões de mercado, ainda somos vistos tão somente como o país do futebol, do carnaval e da violência urbana?

LR: Isso vai depender do setor da sociedade. O cidadão comum do Japão, da França, dos EUA, continua pensando nesse Brasil. Mas as classes mais importantes encaram o país como uma potência energética, uma superpotência cultural e uma economia forte. O mandato de Fernando Henrique Cardoso foi fundamental para essa nova imagem. Ele deixou para trás, na relação com outros países e líderes internacionais, o “complexo de vira-lata” a que Nelson Rodrigues fazia referência. Hoje, o governo Lula colhe esses frutos.

Poder: O senhor se tornou conhecido no Brasil depois da famosa reportagem em que falava dos hábitos etílicos do presidente. De lá pra cá, Lula parece ter ganhado relevância mundial, a ponto de ser citado por Barack Obama como “o cara”. Internamente, ele goza de um dos mais altos índices de popularidade de um político em todo o mundo. A que o senhor atribui o sucesso de Lula?

LR: O peso político e econômico do Brasil tende a crescer internacionalmente e, por isso, independentemente do presidente que represente o país, ele será respeitado. Outra coisa que favorece esse cenário é a excelente habilidade diplomática do país, exercida pelo Itamaraty e seu corpo de diplomatas.

Poder: Mas o Itamaraty tem sido alvo de críticas em episódios como o convite do governo brasileiro para uma visita do presidente iraniano Ahmadinejad ao país ou na tentativa de envio de um embaixador para a Coreia do Norte…

LR: Minha impressão é de que isso reflete uma política do Palácio do Planalto, do PT e não do Itamaraty. O Brasil é um país que sempre evitou entrar em polêmicas e constrangimentos desnecessários. Nos últimos tempos deu para cutucar o gigante. A visita de um maluco como Ahmadinejad é um exemplo disso e eu, sinceramente, não vejo nisso nada de positivo.

Poder: Qual é de fato a relevância do Brasil no cenário internacional?

LR: A importância varia de acordo com o assunto. Em matéria de energia, é um dos países mais relevantes do mundo. Agora, por exemplo, em se tratando de Oriente Médio, não é relevante. Do ponto de vista político, o Brasil é uma reconhecida potência regional, mas ainda não encontrou meios suficientes para projetar essa influência mundialmente. Se vier a encontrá-los, será por meio do chamado soft power – o poder de uma cultura vibrante, de uma economia forte e da disponibilidade de recursos energéticos. O Brasil tem petróleo, mas não se contentou com isso. Hoje o mundo inteiro volta os olhos para a biomassa, o etanol. Outro ponto favorável são as reservas aquíferas. A existência de água em território próprio ainda vai pesar muito no mundo e nesse ponto o Brasil está numa posição privilegiada.

Poder: Hoje, o que denigre mais a imagem do Brasil no exterior: a corrupção de nossas instituições ou as balas perdidas no Rio de Janeiro?

LR: Sem dúvida a corrupção é vista como um problema mais sério. Bala perdida acontece em muitos lugares do mundo, inclusive nos Estados Unidos, que é um país fortemente armado. A corrupção inibe investimentos estrangeiros, sem falar que é algo extremamente danoso por invadir o cotidiano das pessoas.

Poder: No livro Deu no New York Times, há duras críticas ao PT em relação ao caso da guerrilha do Araguaia. Nos últimos meses, depois da condenação do governo pelo STJ e pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, começa-se finalmente a busca pelos restos mortais dos desaparecidos. O que diria sobre o caso?

LR: O governo Lula fez de tudo para jogar o problema do caso Araguaia para debaixo do tapete, e agora está pagando um preço alto. A condenação da Corte Interamericana de Direitos Humanos é justa. Já chega de comissões e grupos de trabalho, e chega também de covardia. Os mortos e seus parentes merecem uma resposta honesta. Acho um absurdo que um governo dito de “esquerda” queira sacrificar as vítimas da guerrilha do Araguaia e não fazer justiça, só para agradar as Forças Armadas, que, afinal de contas, são os verdadeiros responsáveis pelos abusos de direitos humanos e fizeram de tudo para encobrir e esconder a verdade sobre este episódio tão vergonhoso.

Poder: O senhor diria que o episódio que quase resultou na sua expulsão do país foi um dos mais difíceis que viveu como correspondente ou teve, durante a ditadura, coisa pior?

LR: A pressão durante a ditadura era constante e podia irromper a qualquer momento. O episódio de maio de 2004 foi um espasmo autoritário de um governo democrático. A ameaça de ser expulso me pegou de surpresa. Foi uma semana difícil, mas foi algo passageiro. Não houve consequências nem existe ressentimento ou angústia.

Poder: Qual a sua opinião sobre Dilma Rousseff, José Serra e Aécio Neves, possíveis candidatos à Presidência em 2010?

LR: Dilma é muito capaz, preparada e com capacidade administrativa já demonstrada. Ela conseguiu impor disciplina ao Planalto, coisa que não existia antes. Ao mesmo tempo, nunca foi candidata a nada. Começar com uma eleição à Presidência é uma situação muito semelhante à de Michelle Bachelet no Chile, que, antes de ser presidente, nunca havia disputado eleições. Em relação ao Serra, ele já foi candidato e hoje governa o principal estado do país e com bom desempenho. Resta saber se deixará essa situação tão cômoda para disputar uma batalha cujos resultados ainda não são claros. O Aécio é um futuro presidente do Brasil, mesmo que não seja na próxima eleição. Em 2002, meu editor no jornal visitou o Brasil e participou de um almoço com Aécio. Depois perguntei a ele o que tinha achado, e ele disse: “Almocei com um futuro presidente do país”.

Poder: Hoje o senhor está cobrindo cultura em NY. É a cidade mais interessante do mundo?

LR: A vida cultural de Nova York tem uma variedade impressionante, assim como toda megalópole, como Tóquio, Londres, Paris. O que não me deixa perder o interesse pela cultura brasileira. Morando no Rio de Janeiro, é inevitável que ela faça parte do seu cotidiano, mas eu ia além. Interesso-me pela cultura produzida em São Paulo, na Bahia, em Pernambuco, no Rio Grande do Sul. Tenho na parede de casa uma bela xilogravura do artista plástico Joca Borges. Também acumulei muitos objetos de arte popular brasileira, como bonecos de barro, coisas típicas do Pará, da Amazônia, artigos do candomblé da Bahia, mas, sobretudo, livros e discos de artistas brasileiros.

Poder: Ao descrever a vida cultural borbulhante que encontrou no Brasil dos anos 70, uma das coisas que o senhor diz é que “diferentemente dos artistas em alguns países europeus, os brasileiros talentosos não se beneficiavam de subsídios estatais destinados a encorajá-los ou sustentálos”. Hoje, com os incentivos estatais, o que o senhor diria que mudou na produção cultural do país?

LR: Eu acho que Gilberto Gil deu um passo à frente como ministro quando criou pontos de cultura nas periferias. Ainda vai levar tempo, mas acredito que essa medida produzirá obras de arte que vão impactar o país e o mundo. É uma política correta num país que não tem tradição de valorização do seu artista popular. Conheci cordelistas em Pernambuco em situação de penúria, ao contrário de artistas populares japoneses que são tratados pelo Estado como tesouro nacional.

Poder: Como o senhor diria que os anos passados no Brasil mudaram sua visão de mundo?

LR: A experiência de ter vivido no Brasil e convivido com brasileiros me marcou e me modificou em todos os sentidos, desde meu gosto musical até minhas preferências culinárias. Mas, principalmente, me ensinou que há várias maneiras de enxergar a vida e o mundo, e que nenhuma delas é dona absoluta da verdade. O brasileiro vê questões profundas e triviais – como raça, o papel de um governo ou de um partido, ou qual é o melhor esporte do mundo (adoro o beisebol) – de uma maneira muito diferente da minha. E isso me força a pensar e analisar a minha própria visão das coisas, meus próprios valores, e ser mais tolerante.

Poder: É sabido que o NYT, assim como outros grandes veículos da imprensa americana, está passando por uma grave crise financeira. O senhor é otimista com relação à sobrevivência dos jornais impressos?

LR: Essa crise não se restringe à imprensa americana, ela é global. Durante a cobertura que fiz da campanha presidencial, acompanhando Obama, McCain e Hillary Clinton, estive em contato com as novas mídias e pude perceber o enorme impacto que têm. Hoje, nos EUA, os blogs políticos, como The Huffington Post e Politico, se tornaram leitura obrigatória. Uma coisa é certa: apesar da mudança de hábitos do leitor, o que devemos fazer é continuar nosso trabalho. É isso que ainda faz do New York Times um baluarte na cobertura política nacional, internacional e na cultural. Tenho fé que esse impasse será resolvido, mas não sei como. Até porque, se soubesse, já estaria milionário.

Por uns dólares a mais

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Agosto 13, 2009

Antônio tem 20 anos de profissão, cobra de 1 000 a 2 000 reais por trabalho e já matou mais de 300 pessoas, mas está preocupado: a concorrência pratica preços menores e não tem código de ética

Camisa preta de mangas longas, jeans surrado e botas de boiadeiro. O homem de 1,70 metro surge do corredor escuro que liga a sala à cozinha mal iluminada. Sem falar nada, coloca sobre a mesa duas pistolas “ponto 40″, originalmente criadas para o FBI e usadas por polícias brasileiras. Ambas estão carregadas e fazem barulho quando encostam na madeira. Sobre a cabeça, Antônio (nome fictício) traz uma camisa enrolada como se fosse capuz. “Está com medo?”, pergunta. E estende a mão.

Depois dos cumprimentos ele se acomoda numa das três cadeiras da cozinha. Na cintura, traz uma terceira pistola da qual não se separa. Tem o olhar fixo no interlocutor. A luz fraca ajuda a esconder o pouco de feição que se percebe por trás do capuz. Seus olhos são castanho-claros, a voz é rouca e o sotaque mistura o modo de falar nordestino com algumas palavras em castelhano. À pergunta “qual é a sua profissão?”, ele responde sem hesitar: “Eu mato”. Aos 35 anos Antonio mata uma média de 15 pessoas por ano. A soma dos corpos ultrapassa a marca de 300.

Ele conta que começou cedo no ofício. Seu primeiro assassinato, lembra, cometeu quando tinha 15 anos, em Alagoas. “Foi numa briga de família. Era um homem de 58 anos. Matei numa emboscada com um tiro de [espingarda calibre] 12. Depois ainda descarreguei um [revólver] 38 nele. Não senti nada.” Desde então, coragem e disponibilidade passaram a ser seu cartão de visita. Os clientes eram geralmente políticos e fazendeiros da região. “Nunca mais parei”.

Terra sem lei

Antônio transita há oito anos pela linha de fogo que vai de Pedro Juan Caballero a Capitán Bado, no estado paraguaio de Amambay. Distante 420 quilômetros de Assunção, Caballero é uma cidade de 80 mil habitantes que, junto com Capitán Bado e Coronel Sapucaia, no Mato Grosso do Sul, forma um território sem lei onde, a partir das 8 da noite, só cachorros e loucos circulam pelas ruas. Há um toque de recolher implícito na rotina da população, que sobrevive em sua maioria sustentada pelo tráfico de drogas. “Quando a polícia bate por aqui é um deus nos acuda. Não se compra um prego, não circula um tostão”, queixa-se o comerciante de uma pequena loja de eletrônicos no centro de Capitán Bado, que prefere não se identificar.

A região, de acordo com dados da Secretaria Nacional Anti-Drogas (Senad), órgão ligado à Presidência da República do Paraguai e financiado pelo Departamento de Estado Americano e pela Polícia Federal brasileira, é responsável por dois terços da produção de toda a maconha plantada em solo paraguaio. A estimativa é que atualmente 21 mil hectares de terra sejam destinados ao cultivo da droga no país, dos quais 15 mil nos arredores de Capitán Bado e Pedro Juan Caballero. A produção média local é de 3 toneladas por hectare em cada colheita. E a produtividade vem aumentando nos últimos três anos com o plantio de maconha geneticamente modificada, capaz de proporcionar até cinco colheitas anuais em vez das duas habituais.

O tráfico e as plantações de maconha na região começaram há 35 anos, quando João Morel, um fazendeiro mato-grossense assassinado em 2001 no presídio de Campo Grande, decidiu exportar maconha do Paraguai para o Brasil, entrando à força no negócio dos bolivianos e dos colombianos. Pioneiro no tráfico, Morel abriu caminho para os grandes “comerciantes” de hoje, como Pavão, Pingo, Cabeza Branca, Líder Cabral e o carioca Fernandinho Beira-Mar.

“Os Morel reinaram aqui por três décadas. No fim dos anos 1990, quando o tráfico se pulverizou, apareceram os matadores de aluguel, usados de forma indiscriminada para eliminar inimigos. Aí a coisa saiu do controle”, diz o delegado Carlos Knoll, da Delegacia de Repressão ao Tráfico de Entorpecentes de Campo Grande (MS).

Por “sair do controle” entenda-se uma média de 150 mortes por ano na linha de fronteira. “As mortes na região são um braço do tráfico e uma forma de ele se perpetuar. Quem mata mais mostra mais força”, queixa-se o delegado Caio Pellin, da PF de Ponta Porã (MS), que está prestes a deixar a região para combater o tráfico na Amazônia.

Mercado de sangue

Antônio é um dos integrantes da sangrenta engrenagem que envolve policiais, militares, promotores, juízes e políticos paraguaios, todos corrompidos pelos gordos “pedágios” que os bandidos alegam pagar nas diversas fases do tráfico e de crimes adjacentes, da produção ao transporte, além da manutenção de rotas e fregueses. “Tenho três processos no Brasil por porte de arma e homicídio, mais dois no Paraguai. A única maneira de permanecer solto e trabalhando é pagando propinas a esses filhos da puta. Pago de meganha a juiz, 1 000, 2 000 reais, quanto pedirem”, reclama Antônio.

Mesmo num ano de crise econômica, a atividade mantém-se a todo o vapor e parte das mortes sequer chega ao conhecimento da polícia, já que ocorrem em campos desertos e estradas vicinais. Apesar da perenidade, Antônio reclama que o mercado de trabalho não é mais o mesmo. O aumento da demanda de assassinatos trouxe à região uma legião de jovens matadores, muitos do próprio lugar que, sem perspectivas de trabalho, acabam seduzidos pelas ofertas de mortes. “Nos últimos anos, isto aqui virou uma bagunça. Aceitam matar por qualquer trocado. Eu só recebo em dólar e adiantado”, conta. Os valores variam de acordo com a importância da vítima. “Já matei político grande da região por 10 000 dólares, mas, se for peixe pequeno, a gente negocia um preço menor, 1 000 ou 2 000 reais.”

O delegado Pellin atesta que os preços praticados por Antônio são dos mais altos do mercado. “Não é difícil encomendar uma morte por 100, 200 reais. A realidade é que estão matando cada vez mais. E por menos.”

O velho pistoleiro também se irrita com o comportamento dos novos matadores, geralmente jovens com menos de 20 anos. “Eu não bebo, não fumo, vivo sozinho, tenho horror a drogas. Saio de casa, trabalho e volto sem perturbar a vida alheia. Mas como age a meninada hoje? Na desordem, no barulho. Matam e comemoram, saem dando tiro a torto e a direito, e tem uns que ainda roubam. Não gosto de gente assim. Onde já se viu roubar o que é dos outros? Na vida, a gente tem de ter disciplina”, filosofa em tom austero. Em sua disciplina com traços de superstição, Antônio inclui jamais assassinar policiais (“Dá um azar danado!”), carregar a arma apenas quando está efetivamente saindo para executar um serviço e nunca tratar diretamente com o contratante. “Não quero saber da vida da vítima, se é novo, velho, se tem família, nada. O que me interessa é o dinheiro adiantado, o dia e o local para eu fazer o trabalho”, sentencia.

A clientela

Os contratantes de Antônio são, na maioria das vezes, grandes traficantes da fronteira, mas também médios e insuspeitos como Alfredo (nome fictício), que envia semanalmente ao Brasil cerca de 1 tonelada de droga, por via terrestre, de Capitan Bado até Campo Grande (MS). Franzino, 25 anos, olhos verdes, Alfredo nasceu em Coronel Sapucaia, mas fala com forte sotaque paraguaio. “Nos últimos tempos, tenho encontrado umas ‘mulas’ loucas que enchem um carro de passeio, deixando apenas o lugar do motorista, e saem daqui para Campo Grande se arrastando no asfalto de tanta maconha.” Alfredo conta que, para garantir a segurança da rota contra eventuais emboscadas de concorrentes, ter matadores à mão é fundamental. O contato com os profissionais é feito por agentes como Carlos, que mantém uma carta de matadores para que o cliente escolha. Foi por meio dele que a reportagem da PLAYBOY chegou até Antônio.

Carlos, 26 anos, trabalha como assessor parlamentar de um deputado paraguaio. Para a conversa, escolheu aquele que considera seu melhor profissional. “Este nunca errou um tiro e jamais deixou de entregar as encomendas”, diz, sem disfarçar o orgulho.

Com as armas de Jorge

Para Antônio, pouco importa o poder do traficante que o contrata, se envia 1 ou 10 toneladas por semana. “É um trabalho como outro qualquer, como o de pedreiro, pintor, médico. Alguém precisa fazer o ‘serviço’; então vou lá e faço.”

Remorso e culpa são sentimentos estranhos para ele, que diz ter apego a apenas duas coisas: a chácara de 2 hectares nos arredores de Pedro Juan Caballero, que comprou com dinheiro dos homicídios, e seu cavalo (“Bonito que só o senhor vendo!”). Indagado sobre se pensa em ter uma família e largar o trabalho, Antônio ressente-se. “É algo que não espero. Minha vida é essa, é assim que ganho dinheiro. Qualquer um que se encoste em mim vai ter a vida desgraçada. Prefiro viver sozinho. Mulher para mim é puta de zona; vou lá e pago. Não tenho pai, mãe, nada. Tenho minhas armas, e só.” Os instrumentos de trabalho são uma escopeta calibre 12, três pistolas automáticas e um revólver calibre 38. “A minha preferida é essa ‘ponto 40’. Nunca me deixou na mão”, diz empunhando a arma e simulando posição de tiro diante da reportagem da PLAYBOY.

As mãos macias não denunciam a lida com armas, tampouco o cuidado da terra a que se dedica no intervalo das mortes. “Quando não tem serviço, fico na chácara, plantando, vendo televisão, de preferência documentários do Discovery Channel e do canal Infinito, que trata de fenômenos sobrenaturais. Música, só caipira de raiz. Se eu não danço, não faz sentido ouvir música para dançar.”

Devoto de São Jorge, Antônio nunca sai para matar sem antes rezar pedindo proteção ao santo guerreiro para que mantenha o seu corpo fechado. Parece funcionar. Ele nunca foi alvejado. A conversa termina. Antônio levanta-se e segue em direção ao corredor escuro da casa. Antes de sumir por completo, volta-se com as pistolas em punho. “Precisando de qualquer ‘serviço’, já sabe onde me encontrar.”

Roraima, 2008 – Rastros de ódio

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Agosto 13, 2009

No alto da ponte de concreto o homem aponta uma lança. A camiseta sobre a cabeça, que ele usa como capu, e o escudo feito de plástico injetado fazem com que se pareça com um guerreiro medieval. Ao seu redor estão outros 30 homens, entrincheirados entre sacas de arroz, armados com paus, espingardas, arcos e flechas. Tencionam impedir que a Polícia Federal invada Vila Surumu, a porta de entrada da reserva indígena Raposa Serra do Sol. Eles não querem ser fotografados e um deles ordena que a reportagem de PLAYBOY erga os braços. A coisa não parece acabar bem. Aliás, nada vai acabar bem no conflito que toma conta do norte de Roraima, no qual arrozeiros e índios disputam a bala a posse da terra

A Mitsubishi L200 verde pára e dela desce um sujeito alto de olhos azuis. Vestindo uma bem cortada camisa branca, ele em nada lembra os molambentos guardiões da ponte. Seu nome é Paulo César Quartiero, o responsável pelo clima de insurreição instaurado desde que a Polícia Federal deu início à operação Upatakon 3 (“minha terra”, em dialeto macuxi), para a retirada dos não-índios da reserva Raposa Serra do Sol. Quartiero pede que seus comandados baixem as armas e manda repórter e fotógrafo atravessarem a ponte. Está surpreso por ter sido encontrado. Surumu fica a mais de 200km da capital Boa Vista, onde a PF plantou seu quartel-general. No lugar há apenas um telefone público e os celulares ficam fora da área de cobertura. Para chegar ali, é preciso vencer estradas no meio do nada (um misto de cerrado e floresta onde é possível rodar horas e horas sem encontrar vivalma), atravessar duas pontes queimadas e dois igarapés.

Até então, só a mulher de Quartiero sabia do seu paradeiro. O arrozeiro se embrenhara em Surumu havia 11 dias, desde que a Polícia Federal expedira uma ordem de prisão contra ele. O mandado o impedia de voltar à casa que mantém na capital e rever os filhos. O do meio, Renato, 22 anos, deixara o hospital havia dois dias. Fora vítima da explosão de uma bomba caseira num dos protestos contra a primeira tentativa da PF de entrar na Vila Surumu. Quartiero trata o episódio como mero efeito colateral da sua guerra particular. “Posso pedir qualquer coisa ao meu filho, menos que seja covarde.”

A batalha em Surumu começou dia 27 de março, quando a vila chegou ao noticiário nacional como o principal foco de resistência à retirada de não-índios da reserva Raposa Serra do Sol, uma área de 17 750 km2 onde vivem 4 mil fazendeiros e 19 mil índios das etnias macuxi, wapixana, taurepang e ingaricó. É um território equivalente ao do Kuait, país onde vivem 2,8 milhões de pessoas.

A Raposa Serra do Sol foi demarcada durante o governo Fernando Henrique Cardoso, mas o conflito começou a se acirrar em 2005, quando o presidente Lula assinou a homologação para que a reserva fosse demarcada com terras contínuas na sua extensão. A decisão gerou conflito entre os que querem a demarcação em “ilhas”, preservando as propriedades da região, e os que acham que ela deveria ter demarcação contínua, com a expulsão dos não-índios da área homologada.

Dentre os não-índios que por ali se instalaram estão seis grandes rizicultores. O mais determinado deles é Paulo César Quartiero. À frente de um grupo de 30 homens, ele organizou a resistência. A insurreição usa de táticas de guerrilha, com pontes queimadas, estradas minadas, bombas caseiras como a que atingiu Renato e até um inusitado carro-bomba estacionado em frente ao posto da PF em Pacaraima, a 50km da sede da reserva, numa tentativa frustrada de atentado. Quartiero nega que tenha alguma coisa a ver com tudo isso, mas não deixa de declarar que só sai de lá morto.

Gaúcho da cidade de Torres, Quartiero, 55 anos, se formou em agronomia na universidade de Passo Fundo, aos 24 anos. No mesmo ano decidiu deixar a cidade à procura de um pedaço de terra. Embora seja incapaz de dizer com certeza a idade dos filhos, lembra com precisão o dia em que chegou a Roraima: 29 de setembro de 1976. Veio a reboque do projeto Integrar para Não Entregar, patrocinado pelo governo militar para promover a ocupação da Amazônia. Quartiero acredita firmemente na teoria conspiratória que prevê a ocupação estrangeira da Amazônia, paranóia bastante difundida na região. Esse, aliás, é um dos poucos assuntos que o fazem abandonar a habitual frieza. “Estão querendo internacionalizar isto aqui. Quando a Amazônia era um buraco, sem energia, asfalto e transporte, ninguém queria vir para cá. Fui um dos poucos que se arriscaram. Agora todo mundo quer um pedaço. A troco de quê?”, diz, exaltado, para em seguida acusar ONGs e a igreja Católica de serem coniventes com o que ele chama de “venda da Amazônia” para “estrangeiros que circulam livres e escondidos em reservas indígenas praticando biopirataria e ocupando ilegalmente a floresta, restringindo inclusive o acesso de brasileiros”.

Amazônia internacionalizada

A teoria conspiratória em torno da floresta tem como alicerce teórico os estudos do general Menna Barreto, que datam das décadas de 40 e 50. A tese veio mais uma vez à tona em meados de março, quando foi realizado no Rio de Janeiro o seminário Amazônia: Cobiçada e Ameaçada, promovido pela Escola Superior de Guerra do Brasil em parceria com o Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos. Na ocasião, Paulo César Quartiero foi saudado pelo coronel da reserva Gélio Fregapani, que serviu durante 40 anos na região amazônica, como “a esperança para que não entreguemos de vez a nossa Amazônia”.

A ocupação amazônica é um tema complexo. Envolve índios, não-índios, colonos, ONGs, católicos, evangélicos, militares, ambientalistas, fazendeiros e mineradoras, num mosaico que dá a Roraima a estatura de microcosmo de todas as teorias de defesa, proteção, invasão e soberania da maior floresta tropical do mundo. A celeuma é tamanha que pela primeira vez na história deste país esquerda e direita formaram uma ferradura ideológica, aproximando suas teses guiadas pelo fio condutor da soberania nacional. Argumentos defendidos pelo deputado federal de esquerda Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que em recente artigo assinado no jornal O Estado de S. Paulo condenou a demarcação da Raposa Serra do Sol, não são diferentes dos apregoados por militares de direita.

Obviamente a resistência de Quartiero à retirada não tem apenas um vírus nacionalista. Ele também defende o que conquistou nos 32 anos em que está em Roraima. A saber, 4,5 mil hectares de terra nos quais cultiva arroz e soja e mantém um rebanho de 5 mil cabeças de gado; uma usina de beneficiamento de arroz em Boa Vista e o cargo de prefeito do município de Pacaraima, onde foi eleito pelo DEM em 2006 e afastado sob suspeita de compra de votos. Coincidentemente, enquanto conversava com a reportagem da PLAYBOY, ele recebeu a notícia de que o TSE havia lhe devolvido o mandato por falta de provas.

Pacaraima fica estrategicamente localizada na fronteira com a Venezuela. A julgar pelas palavras do arrozeiro, suas relações com o país vizinho são as melhores possíveis. “Na crise com a Colômbia, o governo da Venezuela fez uma oferta para que eu exportasse 45 toneladas de arroz por mês. Recusei. Preciso servir a terra onde finquei meus pés e constituí família. Sinto-me um macuxi”, diz num tom de candidato em campanha e sem dispensar o típico “tchê” gaúcho ao final da frase. Seu mandato no município de 4,5 mil eleitores é tido como um trampolim para as eleições ao governo do estado em 2010. Mas há quem não veja com bons olhos seu futuro político. Um desses críticos é o senador peemedebista Romero Jucá. “Ele não é uma liderança proeminente — pelo menos não ainda — e tem se revelado bastante intransigente, o que acaba por encobrir o seu mérito, que é de ser um homem trabalhador e que ajudou Roraima a se desenvolver”, avalia.

Até o último índio

Além de um pequeno império no coração da Amazônia, Quartiero também conquistou uma legião de seguidores e igual (ou talvez maior) número de inimigos. O clube de desafetos é formado pela Polícia Federal (a quem Quartiero se refere como “uma guarda pretoriana a serviço do rei e contra o povo”), padres, ONGs que atuam no local e pelos índios do Conselho Indígena de Roraima, o CIR.

Criado em 1977, sob as bênçãos da diocese de Boa Vista, o CIR é fruto das reuniões nas quais se discutiram diretrizes de preservação da terra indígena contra a invasão de garimpeiros e fazendeiros. Dirigido por Dionito José de Souza, o conselho é a organização indígena melhor estruturada e articulada na região. Além de uma sede em Boa Vista, que serve como escola de cursos profissionalizantes promovidos em parceria com a diocese e albergue para os índios filiados, a organização possui três picapes 4 x 4, iguais às de Quartiero, adquiridas com recursos de 12 ONGs norte-americanas e européias que volta e meia enviam seus representantes para a região.

Um dia depois de receber a notícia do cancelamento da operação Upatakon 3 pelo STF, o semblante de Dionito era de desolação. A decisão do Supremo de cancelar a operação partiu de um pedido protocolado pelo governo do estado de Roraima, sob o argumento de que, se levada adiante, poderia causar um conflito civil. Dionito toma como um revés para a causa, mas não se dá por vencido. “Lutaremos até o último índio e, se preciso for, iremos para o combate contra gente do nosso próprio sangue”, diz exaltado. Para o provável combate, ele diz contar com o apoio de índios do Mato Grosso e do Pará. Algumas semanas depois, a promessa seria cumprida com a invasão das terras de Quartiero. Nove índios foram feridos a bala pelos homens do rizicultor, que alegaram ter sido recebidos a flechadas. O saldo do faroeste caboclo foi a prisão, no dia 7 de maio, de Quartiero, seu filho Renato e mais dez pessoas, sob a acusação de formação de quadrilha, tentativa de homicídio e posse de explosivos. Quartiero foi solto nove dias depois.

Outro inimigo sacramentado de Quartiero é o padre Vanthuy Neto. Nascido no Rio Grande do Norte, Vanthuy chegou a Boa Vista há duas décadas. Hoje, além de cuidar da paróquia local, dedica-se, por meio da diocese e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ao que chama de “direito urgente dos índios”: “Quartiero usa seu poder econômico, e agora político, como prefeito de Pacaraima, para incitar a massa e agir de maneira terrorista e contra a lei, na defesa pura e simples dos seus interesses econômicos”, afirma Vanthuy. Faz até acusações mais graves. “Obviamente não tenho como provar, mas todo mundo em Boa Vista sabe sobre quem recai a suspeita de ter incendiado a missão da diocese em Surumu, que destruiu a capela, uma escola e um posto de saúde em 2004.”

Católicos x evangélicos

O conflito da Raposa Serra do Sol não é apenas um embate entre brancos e índios. Também é um confronto entre índios católicos e índios evangélicos. Enquanto os católicos são representados pelo CIR, na oposição está a Sodiur (Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima), entidade criada em 1992 por Lauro Barbosa, um índio de etnia macuxi. Lauro diz congregar em torno da sua causa, a de remodelagem da demarcação de terras indígenas no Brasil, cerca de 10 mil índios de todas as etnias que habitam a região. “É da ignorância do índio que depende a saúde financeira de ONGs e pastorais, por isso o interesse em nos isolar do mundo”, diz com expressão cansada em meio a cerca de 30 índios que se alternam na casa de apoio que a Sodiur mantém em Boa Vista.

A organização, segundo Lauro, se mantém com recursos financeiros próprios, fruto da doação dos membros, mas não falta quem acuse a Sodiur de receber ajuda dos rizicultores, para quem muitos dos filiados trabalham. Lauro contra-ataca: “A nossa organização, que congrega mais índios que o próprio CIR, não tem voz por quê? Porque nunca aceitamos o apoio de ONGs nem dos padres. Eles, com o poder de articulação que possuem, passam a imagem de índios castigados e desrespeitados pelos brancos, quando na verdade eles é que são os brancos que se intrometem nos interesses dos índios”, diz, sob o olhar afirmativo de três tuxauas (líderes indígenas) de regiões distantes da Vila Surumu. “Além disso”, continua Lauro, “há a questão religiosa: como boa parte dos filiados à Sodiur é evangélica e nunca houve nenhuma pregação separatista como a que é feita pelos padres, somos desconsiderados”. Pelo lado do Cimi, padre Vanthuy rebate a insinuação: “A demarcação da reserva não impedirá em nada o culto de outras religiões, então não há nenhum aspecto religioso no conflito”, diz, ao mesmo tempo em que se nega a comparar a pregação dos padres a favor da demarcação com a dos pastores, que são contra.

A opinião de Lauro também é dividida com índios de outras etnias, como a baré Deise Maria Rodrigues. Nascida na região de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, e formada em educação, ela e o marido, o cientista social José Brasão, criaram há cinco anos a Aliança de Integração e Desenvolvimento das Comunidades Indígenas de Roraima (Alidcir). De acordo com Deise, dois terços dos 19 mil índios espalhados em 194 comunidades dentro da área da Raposa Serra do Sol são contra a demarcação de terras nos moldes como estão sendo realizadas pelo governo Lula. E vai além: “Caso sejamos obrigados a viver de maneira forçada dentro da reserva, o que vai acontecer é um conflito entre tribos. Daí só Deus sabe onde pode parar”.

Liderados por Deise, alguns integrantes da Alidcir, em sua maioria mulheres, entraram em conflito com a Polícia Federal por ocasião da segunda prisão de Quartiero no dia 7 de maio. A cena de um grupo de senhoras enfrentando policiais armados de gás pimenta e escopetas poderia ser classificada como “brancaleônica”, mas reflete o clima de animosidade criado entre a população local e a PF. “Eles chegaram aqui em Boa Vista com toda a arrogância do mundo, treinaram usando gás lacrimogêneo numa região cheia de civis e passam o dia cantando os pneus das suas caminhonetes. Deveriam ter mais respeito pelos moradores”, diz o taxista Francisco de Souza.

O outro lado, o da Polícia Federal, não parece preocupado com a opinião alheia. Ao saber da presença da reportagem da PLAYBOY, um policial esbraveja: “Puta que o pariu! Isso virou esculhambação. Até a PLAYBOY tá por aqui!”. Ele vira para o seu superior e pergunta se “quer que eu tome a câmera?”. Afasta-se quando o delegado Fernando Segóvia informa que não é necessário. Responsável pela operação Upatakon 3, Segóvia defende seus comandados: “Viemos aqui para fazer cumprir a lei, desrespeitada por fazendeiros e poderosos. Quem não gosta de nossas ações tem interesses escusos”. Bastante irritado, o delegado diz que está ali para prender Quartiero. Em meio a sua irritação, vaticina: “Esta guerra ainda não terminou”. A frase é praticamente a mesma usada por Dionito. “A guerra não acabou.” Essa também foi a penúltima frase proferida por Quartiero quando a reportagem da PLAYBOY deixava a Vila Surumu. A última foi em tom de advertência: “Nos próximos cem metros dirijam pelo lado esquerdo da estrada, porque o direito está minado”.

Infância

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Agosto 11, 2009

“A professora pergunta: como assim nada, querido? Meus braços soltam os seus joelhos. Nem bombeiro? Ela se abaixa para me olhar de frente. E médico, que tal médico, hein? Mexe nos meus cabelos e depois levanta de novo e se afasta. Vai até o armário, que está cheio dos nossos desenhos colados na porta com durex. Mesmo de um pouco longe, posso reconhecer os meus, na verdade eu ainda poderia reconhecer os meus vinte anos depois, porque as pessoas que eu desenhava tinham caudas ou antenas. Ela tira uma bola de dentro do armário, rosa e com pontos brilhantes, e joga na minha direção. Não me mexo nada, deixo que a bola passe pelo meu lado e role até o pátio, indo parar no pé de outra criança, que então chuta e dá uma risada.

- Nem jogador de futebol?

Nem jogador de futebol. A professora chama os meus pais, e os dois se trancam no quarto depois do jantar. Grudo o ouvido na porta. Biscoito de polvilho. Eu tinha feito biscoito de polvilho na escolinha na semana anterior, o que minha mãe parecia estar achando ótimo e o meu pai a coisa mais lamentável do mundo. Discutem então sobre o método pedagógico de fazer biscoitos de polvilho (o pote seguia intacto na prateleira mais alta do armário da cozinha). Dentro do quarto, alguma coisa cai. Meu pai solta um palavrão e eu desgrudo o ouvido e depois grudo de novo. O assunto é caiaque. É passear com o caiaque que há tanto tempo está na garagem pegando pó.

O problema com andar de caiaque é que não era bem o passeio que uma criança precisava, porque bastava atravessar a rua, e daí era como estar numa piscina de plástico nos fundos da casa, só que na frente. E ficamos lá andando em silêncio, meu pai agitado, preso no caiaque só comigo, sem chance de encontrar alguém com quem pudesse conversar e então me manter sempre uns passos atrás do seu assunto exclusivo para adultos. Depois o sol desapareceu, surgiram umas nuvens cinza, e o lago não se parecia com uma piscina, eu lá com o remo, fazendo tudo o que uma criança pode fazer com um, como mal conseguir segurar, bater de leve e irregularmente na água e achar que a coisa funciona quanto mais barulho produzir. Meu pai disse: você não tem jeito para remar, me alcança isso aí. Não alcancei. Ele se irritou, fez um gesto brusco e tirou o remo da minha mão. O caiaque chacoalhou e eu fiquei meio molhado. Meio molhado quer dizer nessa idade que a gente acha que vai morrer, mas meu pai nunca sacou nada de crianças e nada de nada, ele nunca entendeu por exemplo a regra mais elementar das brincadeiras, que é fingir que se está perdendo para que a coisa possa ter alguma graça. E, no caiaque, disse: talvez você não goste de nada porque ainda não sabe fazer nada.”

Carol Bensimon, em Sinuca Embaixo D’água.

Fogos

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Agosto 10, 2009

O cheiro do pernil se misturava ao da água arroxeada fervendo no fogão. Segundo contaram, a coloração era fruto da mistura de ervas e saponáceos que deveria ser ingerida em pequenos goles e o restante derramado sobre a cabeça. Ato contínuo pedir algo a Iemanjá. Uma simpatia de ano novo que cobriria – a ver depoimentos, para confirmar a realização das mesmas – de bênçãos a vida dos crédulos. Cortar o pernil e aguá-lo com tangerinas gordas e doces tomou-me tempo suficiente para perder o último copo da mistura. Sem gole, sem derramamento e, em tese, sem benção.

O segundo ato consistia em carregar 148 batentes abaixo o barco de madeira compensada que a devota da casa, vestida tal e qual uma personagem de Jorge Amado, havia preparado cuidadosa e ricamente. O mar estava calmo e pelo peso do barco era possível supor que alcançaria a morada de Iemanjá por volta do dia seis de janeiro. A única maneira possível de ajudar no lento percurso era diminuir a carga que se abarrotava.

Entre o fim do pernil e dos goles da água arroxeada, foram-se dois sabonetes, um de pitanga e outro de macadâmia. Iemanjá estava longe demais para dar pela falta dos tais. E quando o barco tomava rumo do acaso, pensei que não era o primeiro réveillon em que eu roubava algo. Houve um em que a garrafa de uísque do velho que chorava abraçado à família, na areia da praia enquanto os fogos queimavam, foi entornada sorrateiramente. Foi meu primeiro porre. Nessa época eu não conhecia sabonetes de pitanga.

Soberbo

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Agosto 4, 2009

almas névoas sobre o corte súbito da pedra
o silêncio levaste-o na concha das mãos para interditar os pássaros
foste lumbre
e entre o teu sol e a névoa esquiva que escorria dos teus olhos o aço
o aço cantava manhãs antigas

(entre ato)

em finas camadas de argila o dia dispunha as suas horas
cuidando que em cada coluna o vento cavasse rugas
e as nuvens depositassem suas águas sobre o clarim dos incêndios
vastos
o teu número te media exato a voz e do teu vôo testemunhava o arco

a morte ao te encontrar te mirou em silêncio com ternura e te estreitou num abraço
então já dormias
um sono em pétalas acamado
e o oboé do dia
disse-te em favos doces largos a trajetória de tua luz no espaço
no dia
em que tua pátria acordava entre lagos
e não ouvia a voz do sol em meio à procissão dos astros

Jairo Lima, em Morte.

Sol, címbalos e celulares

Publicado em Uncategorized por Rodrigo Levino em Julho 27, 2009

Texto originalmente escrito para a revista piauí. Nunca publicado, diga-se.

“Som na caixa, David!” ordenou o rabino Daniel Eskinazi, às oito horas e dezessete minutos do último dia 8 de abril, num cercado montado em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo.

Ao fim das orações em hebraico e início da música festiva executada pelo toca-discos do jovem David, oito judeus ortodoxos partícipes do indefectível combo de roupas pretas, chapéus de abas largas, barbas longas e costeletas encaracoladas, postaram as mãos nas costas um dos outros e formaram um trenzinho. Em voz alta repetiam “ai, ai, ai, ai” ad infinitum. Aos oito juntaram-se mais quatro adultos e três crianças, o que diante do contingente de cerca de 600 pessoas ao redor mostrou-se um fracasso retumbante. Por falta quórum, o trenzinho se desfez.

Mas isso não foi suficiente para tirar o brilho da celebração ocorrida debaixo de um sol esturricante. Providência divina, como se vê. É justo o sol que se festeja durante o Birkat Ha’Chamá, motivo pelo qual todos estavam àquela hora do dia e cercados pelo trânsito engarrafado na Praça Charles Miller. O evento, que em 2009, como poucas vezes na história, colou-se à véspera do Pessach, a páscoa dos judeus, ocorre a cada 28 anos quando o sol retorna à posição do dia em que foi criado; o quarto dia da criação, há exatos 5.769 anos, segundo a crença judaica.

O cálculo que assinala o dia da Benção do Sol, disposto no Talmud, o livro da doutrina, da moral e das tradições judaicas, remete aos séculos III e IV D.C. e foi realizado por rabinos da linhagem Amoraim. Segundo Daniel Eskinazi, que conduziu a cerimônia no Pacaembu, é impossível explicar em linhas gerais que tipo de equação ou teorema matemático e/ou astronômico os Amoraim usaram para chegar a tal data. Mas isso pouco importa, “afinal, estamos todos reunidos e diante de um sol belíssimo. Por favor, não vá confundir a celebração pela existência do sol com a adoração a ele. Isso D’us (grafia utilizada por judeus) condena de maneira implacável”, advertiu, enquanto os participantes do trenzinho vagavam perdidos e meio desconfiados,às suas costas, após a inesperada dispersão.

Pouco familiarizada com as tradições judaicas, este repórter foi energicamente exortado a “procurar o seu lugar”, antes do início da cerimônia. A saber, o lado oposto onde se encontrava, visto que era o reservado para as mulheres. Por se tratar de uma cerimônia onde são realizadas orações, mesmo ao ar livre, manteve-se a tradição de dividir homens e mulheres, como nas sinagogas. Conselho, no entanto, esnobado por membros da própria comunidade. Alguns mais jovens, como Shmuel S., 19 anos, ignoraram a indicativa e permanecieram no lado errado, onde segundo ele “pode-se observar as meninas do evento”.

“Um absurdo!”, reclamou um dos ortodoxos presentes, ao perceber que enquanto as orações eram realizadas alguns jovens filmavam uns aos outros com as câmeras dos celulares de última geração, riam e conversaram. “Eles estão por toda parte e já não têm respeito algum. O que se pode fazer?”, contemporizava outro. Abordados, mostraram-se pouco amistosos, dando a entender que um gói era naquele instante tão bem vindo quanto os celulares.

Dos poucos que se arriscaram movimentar-se enquanto o mestre de cerimônias congratulava o sol pela sua existência, o rabino Levi Slonim foi o único recebido com sorrisos aquiescentes pelos demais ortodoxos.

Carregando uma pequena lata de metal, recolhia dinheiro para a caridade. De cada dez, nove permaneciam emperdenidos, embora mantivessem o sorriso de boas vindas. Percebendo a pouca disposição dos presentes para a oferta voluntária, Slonim decidiu improvisar e mostrar que o importante na verdade é a representação do ato caridoso. Retirou moedas do próprio bolso e dava-as a cada um dos abordados para que pusessem dentro da lata.

A exceção ficou por conta do rabino Henry Sobel, que com dificuldade retirou dois reais do bolso e ofertou ao jovem Slonim. Até o fim das moedas, ninguém recusou a caridade feita com recursos alheios. Embora ocupado com o “recolhimento” dos donativos Slonim manteve o coração elevado a D’us e ao fim da oração do rabino emendou em voz alta Halelú’Hu betsiltselê sháma, halelú’Hu betsiltselê teruá (Louvem-No com címbalos retubantes, louvem-NO com címbalos retinentes). Todos ao redor disseram amém, ao passo que alguns organizaram uma fila, avisados pelo microfone que “ainda há matzá disponível a preço módico, na nossa van”, para comprarem a sua porção de pão ázimo, ou sem fermento, próprio da comemoração do Pessach.

Entre eles, Sobel, que ao ser indagado sobre a importância espiritual do Birkat Há’Chamá, elevou os olhos ao sol e disse em tom solene e reconhecido sotaque: “O sol é o astro mais importante da nossa Via-Láctea, do Sistema Solar. Ele jamais entra em choque com outras galáxias, pois obedece uma ordem maior. E, assim como ele, nós seres humanos não devemos entrar em choque uns com os outros”. E só. Foi aplaudido solitariamente pelo senhor de nariz adunco imediatamente atrás na fila, enquanto Slonim esperava em vão uma nova contribuição e Shmuel, satisfeito, trocava o número do celular com uma garota. À essa altura David, o DJ, já havia retirado o som da caixa.